Sobre o luto: como lidar com a morte?

“Talvez a morte seja a temática mais difícil de se lidar porque envolve, justamente, o desconhecido. Não sabemos exatamente o que acontece depois que o corpo pára de funcionar e a alma abandona seu invólucro carnal – costumamos dizer que ninguém nunca voltou para contar o que existe do outro lado. Algumas tradições espirituais são bastante taxativas no que diz respeito à esta passagem e, talvez, o Kardecismo seja a que a aborda mais amplamente. Mas, de qualquer forma e tendo você a religião que tiver, elaborar o luto de um ente querido não é nada simples.

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Não existe uma fórmula mágica sobre como sofrer menos ou sobre como não permitir que seu sofrimento seja prejudicial para a passagem de seu ente querido ou, ainda, uma receitinha caseira de “lidando com a morte em 5 passos”. O que existe é aquilo que você consegue fazer. E isso há de ser bom o suficiente.

Dizem por aí que a morte é um sofrimento para quem fica – e eu particularmente concordo com isso. De acordo com as minhas crenças e de alguns “dogmas” que, para mim, são indiscutíveis, o processo de morte acaba sendo uma libertação muito grande. Eu não tenho uma religião específica e nem sigo uma doutrina ou filosofia estritamente rígida com relação ao processo de passagem, mas acredito em algumas coisas.

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Que sejamos seres espirituais em uma experiência humana mas que, quando esta experiência acaba, uma outra se inicia. Que esta vida é apenas uma das centenas que já tivemos e que ainda teremos, enquanto seres imortais em busca do aprimoramento constante e da reconexão com o divino. Que a morte é sentida, por nós, com grande pesar – mas que, do outro lado, nossas almas sejam recebidas com grande alegria pelos que lá estão. Que recebemos apoio espiritual de nossos irmãos de jornada nestes processos de passagem, principalmente quando eles envolvem, como o caso do seu pai, vícios terrenos. E acredito, piamente, que mesmo acreditando em tudo isso eu sofreria horrores se fosse o meu pai, no lugar do seu.

Eu poderia te passar aqui uma lista de livros, filmes e documentários que poderiam te ajudar a ampliar suas ideias com relação ao tema, poderia te contar de todos os países do mundo em que a morte é celebrada e não lamentada. Eu poderia te contar de como existem tradições milenares em que praticantes bastante evoluídos marcam dia e hora para suas almas abandonarem seus corpos – o que de fato acontece. E poderia te falar também que o seu sofrimento é uma energia e que energia é vibração e tem frequência, o que poderia prejudicar o processo de passagem do seu pai. Mas não vou te dizer nada disso.

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O que eu vou te dizer é: chore. O que vou te dizer é: sofra! Não importa no que você acredita e nem no que quer experimentar, o que você está vivendo neste momento é único e é seu e tem direito de ser como é. Emoções são apenas energia em movimento e energia que é para ser em movimento precisa ser movimentada. Então, permita-se sentir o que está sentido e não ouça ninguém que te diga “faça isso” ou “não faça aquilo”. Faça o que você conseguir fazer. Vão existir dias bons e ruins, dias em que você vai achar que está se sentindo melhor para, no momento seguinte, sentir culpa por estar se sentindo melhor. E dias em que tudo o que você gostaria que acontecesse seria voltar no tempo para dizer coisas que você não disse, ou para dar o apoio que você acha que deveria ter dado e não deu. Dias em que a vida vai parecer completamente sem sentido porque o homem que te deu a vida não existe mais. E dias em que você vai conseguir sorrir quase como se nada tivesse acontecido. E nada disso vai estar errado.

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Cada pessoa é uma e cada processo é um processo. O modo como você vai lidar com a perda do seu pai é seu e ninguém poderá dizer que deveria ser diferente. Acho que nós sofremos com a morte porque ela é a coisa mais definitiva que existe, e não somos bons em lidar com as coisas definitivas – por mais que tenhamos igualmente enorme dificuldade em lidar com as mudanças inevitáveis da vida. Mas a verdade é apenas esta: a morte é a única certeza que temos, desde o momento de nosso nascimento. Tudo o que está vivo um dia não vai mais estar, e isso nos inclui.

Mas, acima de qualquer coisa e independentemente de qualquer que seja a forma de você lidar com o seu processo, se eu pudesse te dar apenas um conselho ele seria: sinta-se grata. Grata por tudo o que você viveu com seu querido pai, por cada lição e aprendizado que você teve com ele. Seja grata por cada célula do seu corpo que, se não fosse por ele, não existiriam. Seja grata pelos bons exemplos, que norteiam as suas escolhas – mas seja grata pelos maus exemplos também, tão importantes quanto os bons na construção de sua identidade. Seja grata e seja grata e seja grata e agradeça por absolutamente tudo – e, um dia, você vai se sentir grata até pela forma com que ele morreu, pois é apenas a consequência inevitável do modo como ele viveu. E quando aprendemos a amar uma moeda, amamos seus dois lados, incondicionalmente.

Se dê o tempo de chegar lá.

Eu te amo, por favor me perdoa, sinto muito, sou grata.
Namastê.”

Texto de Flávia Melissa

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