Estamos vencendo a luta contra o HIV?

Conteúdo original BBC Brasil49909fb771

O desenvolvimento de remédios modernos para tratar o problema já fez com que o diagnóstico soropositivo não significasse uma “sentença de morte”, como era no passado. Mas será que estamos vencendo a luta contra o HIV?

Números do vírus

Mais de 1,2 milhão de pessoas nos Estados Unidos vivem com HIV. No Brasil, segundo as estimativas mais recentes divulgadas em março pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, há 734 mil pessoas com o vírus – das quais 589 mil foram diagnosticadas e 404 mil já estão em tratamento.

O vírus ataca o sistema imunológico do corpo e pode levar ao desenvolvimento da Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Nos EUA, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma em cada oito pessoas que vivem com HIV ainda não sabem que estão com o vírus.

Quanto antes um soropositivo receber o diagnóstico, mais chances ele tem de evitar o desenvolvimento da Aids. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 35 milhões de pessoas no mundo sejam HIV positivas – mas somente 50% delas teriam ciência disso.

A situação é pior na África Subsaariana, onde os números chegam a um em cada 20 adultos na região convivendo com o HIV. Cerca de 71% das pessoas soropositivas do mundo moram na África.

Aumentando ou diminuindo?

Mundialmente, o número anual de novos infectados com o vírus do HIV caiu cerca de um terço entre 2001 e 2013 – de 3,4 milhões para 2,3 milhões, segundo o relatório da ONU. Mas esses números não estão diminuindo em todos os lugares.

Nos Estados Unidos, houve cerca de 50 mil novos infectados a cada ano na última década – comparados com os 130 mil por ano no auge da epidemia, nos anos 1980. Lá, gays e bissexuais do sexo masculino correspondem a 63% dos novos infectados. Em Londres, de acordo com a Public Health England, um em cada oito homens que tiveram relações sexuais com outros homens têm HIV.

A taxa de americanos negros infectados também é desproporcional. “Os negros são apenas 12% da população dos Estados Unidos, mas representam 46% dos novos diagnósticos de HIV no país”, explica Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas nos Estados Unidos.

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Houve cerca de 2 milhões de novos casos de HIV pelo mundo em 2014 – e 220 mil deles foram diagnósticos de crianças. A maioria vive na África Subsaariana e foi infectada por mães soropositivas durante a gravidez, na hora do nascimento ou na amamentação, de acordo com a ONU.

Em 2015, Cuba foi o primeiro país a declarar ter eliminado de vez as transmissões do HIV de mãe para filho.

Como o HIV afeta nossa expectativa de vida?

Hoje em dia, um jovem de 20 anos que recebe o diagnóstico soropositivo e que inicia o tratamento com um coquetel de remédios para combater o vírus tem uma expectativa de viver mais 50 anos.

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Isso, comparada à realidade dos anos 1980, durante a epidemia da doença, é uma evolução sem tamanho – à época, uma pessoa que tivesse o diagnóstico de HIV poderia viver mais alguns meses ou poucos anos.

A melhora se deu por causa da descoberta de uma terapia antirretroviral (TAR), que impede o HIV de se multiplicar e reduz a quantidade de vírus no corpo. “Se as pessoas tomarem uma combinação de três ou mais remédios (da TAR) e seguirem à risca o tratamento, podem mudar completamente sua perspectiva”, afirma Fauci.

No fim do ano passado, 14,9 milhões de pessoas estavam recebendo a TAR – 40% do número total de pessoas que vivem com HIV no mundo. Mas 1,5 milhão de pessoas ainda morreram em decorrência de complicações do HIV em 2013. O vírus matou 39 milhões desde meados dos anos 1980.

Qual é o risco do sexo desprotegido?

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Ao revelar ser soropositivo, Charlie Sheen disse ter tido relações sexuais sem proteção nenhuma com apenas duas pessoas – “que já estão sob os cuidados do seu médico”. Mas quão arriscado é o sexo desprotegido? Isso depende de uma série de fatores.

O HIV é transmitido por uma troca de fluidos do corpo, como sangue, sêmen, fluidos vaginais e leite materno. E uma relação sexual desprotegida é a forma mais comum de se transmitir a doença.

O médico de Sheen, Robert Huizenga, disse ao programa Today Show que a chance de o ator passar o vírus para outro parceiro sexual é muito baixa agora, porque o vírus está praticamente “indetectável” no sangue do ator. A taxa de transmissão do HIV para pessoas que não são soropositivas é 96% mais baixa se o parceiro estiver sob tratamento, segundo um estudo internacional.

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Mas o CDC alerta que menos de 40% dos americanos com HIV estão em tratamento – e somente 30% atingiram essa “supressão viral”, quando o vírus fica indetectável. A quantidade de HIV no sangue também pode aumentar novamente, assim como também aumenta o risco de transmissão quando as pessoas param de tomar os remédios.

Um novo tipo de tratamento é a “Profilaxia Pré-Exposição” (PrEP), que pode oferecer proteção contra o HIV durante o sexo, mas ele ainda não está disponível em todos os lugares. Quando Sheen se referiu às parceiras “sob cuidados do seu médico”, provavelmente ele quis dizer que elas estariam tomando esses medicamentos.

Espalhar HIV é crime?

Pessoas soropositivas podem ser processadas se transmitirem o vírus a outras pessoas de maneira intencional.

Nos Estados Unidos, 67 leis focadas especificamente nas pessoas portadoras do HIV foram decretadas em 33 Estados até 2011. Elas tratam sobre casos como não revelar para o parceiro sexual que é portador do vírus – mesmo que o risco de transmissão seja mínimo ou inexistente –, doar órgãos infectados ou “cuspir” fluidos corporais infectados.

No entanto, já houve pedidos para uma revisão das leis estaduais após os estudos que comprovam a redução do risco de transmissão do vírus para pessoas que estão sob tratamento antirretroviral.

Outros países, como o Brasil, o Reino Unido, a Finlândia e a Nova Zelândia, enquadram atitudes como essa – de espalhar o vírus propositalmente – em crimes perigosos, como lesão corporal grave ou homicídio.

A ONU, porém, pede que países limitem a criminalização somente a casos em que as pessoas realmente tiveram a intenção de transmitir o vírus. Ela defende que leis gerais – e não específicas sobre o HIV – sejam aplicadas em casos assim.

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